Meninos do Rio Vermelho e Uma Senhora Pelada

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Coluna Lido para Você

Meninos do Rio Vermelho. Gustavo Tapioca. Salvador: Fundação Casa de Jorge Amado/Casa de Palavras, 2007, 145 pp; Uma Senhora Pelada. Gustavo Tapioca. Brasília: Edição do Autor, 2006, 155 pp.

Foi lançado em Brasília, em seguida a evento muito concorrido em Salvador, o segundo livro de Gustavo Tapioca, Meninos do Rio Vermelho (Salvador: Fundação Casa de Jorge Amado/Casa de Palavras, 2007, 146 p.). A obra, belamente ilustrada por Paulo Setúbal, traz um prefácio de João Jorge Amado, filho de Jorge Amado, este uma referência emblemática no livro de Gustavo.

Livro Meninos do Rio Vermelho

Com efeito, toda a narrativa deste belo livro deriva da memória do autor, não apenas sobre fatos ocorridos mas do modo como ele os recorda (Garcia Márquez) – uma recorrência de seu modo de narrar como mostro adiante – na rua Alagoinhas, no bairro Rio Vermelho, em Salvador, onde o autor morava e onde também vivia, no nº 33, um personagem ilustre, “seu Jorge”, e o mundo fantástico que com ele habitava e circundava aquele recanto mágico.

Não chega a ser uma vida inventada, mas é uma experiência certamente recriada pela memória do adulto que descobre significados marcantes na vida de várias crianças que, ao crescerem, se deslumbraram, se emocionaram, sofreram e algumas morreram, no roldão das profundas transformações que atingiram as suas vidas, especialmente nos anos 1960 e 1970, período em que também o Rio Vermelho se tingiu de sangue.

Em Meninos do Rio Vermelho, Gustavo mostra que não só sabe lidar com a matéria do escritor, mas dominar o ofício. Explico-me. Há algum tempo li, na Folha de São Paulo, uma entrevista com o escritor português Lobo Antunes, que rivaliza hoje com Saramago em Portugal. Lobo Antunes, discorrendo sobre o seu ofício salienta que todos os seus livros (e eu diria, todos os livros) estão carregados de autobiografia. Os livros de Gustavo estão também carregados de autobiografia mas, como diz o escritor português, em Meninos Gustavo revela a condição de verdadeiro escritor exatamente para ser mais ainda profundamente autobiográfico porque começa a “se libertar desta carga” de autobiografia. Quer dizer, para além da autobiografia e das ideias que organiza, ele mostra saber lidar com o único que faz o escritor de verdade escritor, as palavras. E o faz como poucos, com delicadeza, com sensibilidade, com sentido de humanidade, numa narrativa autêntica, uma tecelagem de fios que entrelaçam a infância ingênua de meninos de uma rua que mal sabiam que a vida é também sofrimento, dor e perda, matérias de que são feitos os homens e as mulheres. O que Gustavo traz com este livro, mostra Lobo Antunes, é dar densidade aos seus personagens, encarnar humanamente as figuras da memória, e mais que tudo, usar as palavras para provocar emoções e nos levar a aderir afetivamente à vida daqueles meninos da rua Alagoinhas.

O autor, menino do Rio Vermelho, hoje uma arguto jornalista, tem como escritor, o dom preconizado por Schopenhauer em sentido mais amplo. Ele é capaz de “contemplar o que nunca foi contemplado” e, ao mesmo tempo, de “ pensar como ainda não se pensou sobre o que todo mundo tem diante dos olhos”. Autor de um livro anterior ambientado em Brasília – Uma Senhora Pelada – Gustavo Tapioca sabe revelar o que está diante dos olhos de todos, mas que não é visto. É alguém que sabe tocar a matéria que constitui o escritor. Ele olhou e viu o que ninguém via e se tornou, por isso, escritor. Foi o que tentei mostrar na apresentação de Uma Senhora Pelada, um livro que começou a nascer ainda sob a forma de crônicas em a Tribuna do Brasil, no seu antigo suplemento Zona Norte.

Em Uma Senhora… há mais que a nostalgia de que fala Cristovam Buarque na “orelha” do livro, há um painel da Brasília horizontal, democrática em seus caminhos subjetivos, muito diferente da cidade hierárquica do poder nacional e global, próprio da cidade capital, com seus símbolos e sua nomenclatura.

Abrindo o livro, Gustavo convoca os “peladeiros” de várias épocas, todos iguais no quadrilátero do ludopédio: uma dezena de ministros de diferentes governos não necessariamente aliados, nessa categoria, dois ministros do Supremo Tribunal Federal, dois governadores, senadores, um secretariado nacional representando quase todos os ministérios da Esplanada, boa parte dos Reitores da UnB após a redemocratização da universidade, vários secretários de estado do governo local, dois embaixadores, um deles depois alta hierarquia no comando das Nações Unidas, dois media relations de embaixadas, um plantel de consultores de organismos internacionais, jornalistas, professores (a maioria da UnB, onde a “pelada” nasceu), artistas plásticos, jornalistas locais e globais, porteiro, motorista, caseiros, advogados, arquitetos, engenheiros e parlamentares de diferentes partidos, músicos porque do time se formaram pelo menos dois grupos musicais de razoável sucesso.

No livro Gustavo mostra como tudo começou e como o futebol de vizinhança costura esse tecido mágico que supera diferenças (inclusive ideológicas) e intolerâncias (inclusive de religião, nacionalidade, partidária, preferências por times de futebol, de quem gosta de azul e de quem gosta de encarnado).

Livro Uma Senhora Pelada

Livro Uma Senhora Pelada

Como disse, fiz a apresentação do livro e o tratei com respeito e consideração, porque o conjunto hilário das crônicas temas que em geral devem ser levados a sério. De fato, pensando em Viver para Contar, de Garcia Márquez, considerei todo o acerto de sua afirmação de que “a vida não é a que a gente viveu, e sim a que a gente recorda, e como recorda para contá-la”. A afirmação de Gabo é o que vêm à mente assim que se começa a ler as crônicas de Gustavo Tapioca que, em conjunto, formam o volume de Uma Senhora Pelada.

Logo que elas começaram a ser publicadas na coluna Zona Norte do extinto jornal Tribuna do Brasil, à época aditado pelo jornalista Luiz Recena, ele próprio incentivador e personagem de algumas das CRÔNICAS, percebi o alcance da recriação narrativa que o texto de Gustavo Tapioca provocava. Certamente havia vida vivida em cada CRÔNICA, mas o seu mistério e sabor provinham da memória do autor ou, para dizer com Santo Agostinho, “a memória de lembrar-se de se lembrar”, porque, mesmo que falsa, não é falso lembrar-se dela.

Realidade? Ficção? Não importa. As crônicas de Gustavo Tapioca, como eles as apresenta, recordam situações e personagens de um grupo de amigos que formaram ao longo de 30 anos uma turma de pelada e que teceram, nesse tempo, uma convivência renovada pelo afeto, o humor irônico e a tolerância. A vida vivida por esses personagens no enredo de seu cotidiano é, claramente, real. Mas o olhar do cronista, ao capturar de modo literário as sutilezas dessa realidade, transportam-na para uma dimensão maravilhosa – e ficamos sem saber se são estórias reais, porque fantásticas, ou se são estórias fantásticas porque reais.

Não é coincidência que o modo narrativo de Gustavo Tapioca evoque o realismo fantástico que consagrou a literatura, especialmente latino-americana, num modelo do qual García Márquez é mestre, querendo “tornar a realidade mais divertida e compreensível”. A memória de Tapioca, ao nos recordar como personagens, ao atribuir um sentido assombroso para as situações corriqueiras de uma turma de futebol, acaba trazendo para o cotidiano de nossas vidas compartidas um sopro mítico, semelhante ao que Gabo trouxe com a invenção de Macondo para, assim, atribuir dimensão universal para seus parentes, seus vizinhos, sua vila.

Gustavo revelou, literariamente, uma turma de pelada, com a mesma irradiação com que Drummond de Andrade iluminou os Caminhos de João Brandão. Não se trata, para seguir um comentário de Antonio Cândido, a propósito dessas crônicas, de desenvolver um certo tipo de reflexão, para dar sentido a estímulos aparentemente fúteis ou desligados daquilo que forma a matéria central do exercício de pensamento. Nelas, como indica o próprio Drummond, enquanto se mescla conto e testemunho, “meu amigo João Brandão vive sua vida entre a rotina palpável e a aventura imaginária, e eu vou cronicando seu viver com a simpatia cúmplice que me inspiram o ser comum e sua pinta de loucura mansa, pois na terra alucinada que nos tocou, ainda é virtude (até quando?) cumprir sem violência o mandamento do existir”.

Quem é realmente João Brandão (ficção, autobiografia)? Que personagem real se esconde por trás do coronel a quem ninguém mais escreve? Quem somos os amigos desta turma da pelada retratados por Gustavo Tapioca? O próprio autor oferece uma indicação na abertura do livro, identificando os perfis de tantos que dela fizeram parte nesses 30 anos. Mas o importante – e o que é legítimo – não é designá-los na solenidade de seus cargos, de suas funções, de seus lugares sociais ou de suas biografias, mas imaginá-los tal como representados na memória literária que descreveu suas vidas e que de forma artística, afinal, deu grandeza, expressão maravilhosa às suas existências.

Por isso Gustavo inspirou e instigou vários de nós, nos fazendo descobrir a dimensão telúrica do tema e dos personagens de suas crônicas, transformados em relatos memorialistas (conforme Luiz Recena em Gols e Eternidade, para celebrar Jorge Ferreira, o compositor (Arredondando a Filosofia, dedicada ao “Doutor” Sócrates, o grande futebolista) poeta e escritor (Bar, Serra e Mar – Causos de Minas, escrito com três outros co-autores; Fazimento. São Paulo: Geração Editorial, 2009, 94 pp; Rio Adentro. São Paulo: Geração Editorial, 2012, 95 pp), restauranter de Brasília (chance para editar o Almanaque Cultural Tira-Prosa, e contribuir para a divulgação artística com base na centena de shows realizados no seu tradicional Feitiço Mineiro), por tudo isso e mais feito cidadão honorário da cidade, por Decreto de sua Câmara Legislativa, ver em Roteiro, Brasília: Ano XII, n. 218, junho de 2013, edição temática Jorge Ferreira * 1959 + 2013, especialmente pp 10-11). Assim como eu próprio, neste caso, celebrando o mesmo Jorjão, todavia apenas o peladeiro, na mesma Roteiro, Brasília: Ano XII, n. 219, agosto de 2013, p. 19, com a minha crônica Redenção, para cantar os dez gols que fez numa única partida, redimindo-se do gol contra em cobrança de escanteio, proeza transformada em lenda: “Foi coisa de magia, feito de redenção, fazimento de verdade, de apagar passado, de tirar da memória, redimido, gol contra de escanteio, que fica do outro lado da história do futebol surrealista que parece jogar em Macondo”.

Completando o texto de Gustavo Tapioca, as crônicas reunidas em Uma Senhora Pelada proporcionaram uma outra descoberta. Refiro-me ao desenho (cartoon, charge, ilustração) de Pedro K (K de Koshino). Talento também descoberto por Luiz Recena (Recena depois seria o editor do tablóide Observatório da Constituição e da Democracia que os Grupos de Pesquisa Sociedade, Tempo e Direito e O Direito Achado na Rua publicaram por três anos na UnB, com temas ainda insuperados), Pedro, caricaturista bissexto (porque nas horas vagas de seu ofício de auditor do Tribunal de Contas), cujos primeiros traços apareceram nos anos 1970 no Pasquim, para reaparecerem nas páginas do Tribuna do Brasil, e que é, no livro, autor e personagem, em ilustrações marcadas pela irreverência, tal qual no pastiche (“Picasso, Perdão” p. 71),

Penso que Gustavo Tapioca acertou a mão nestas crônicas de Uma Senhora Pelada. Se não pela sutileza que imprime ao ato de escrever. Talvez muito mais pela motivação com que abraça o ofício de escritor. Neste caso, aparentemente, revelando a disposição de que fala Ledo Ivo: Uns escrevem para salvar a humanidade ou incitar lutas de classes, outros para se perpetuar nos manuais de literatura ou conquistar posições e honrarias. Os melhores são os que escrevem pelo prazer de escrever”. Uma Senhora Pelada, de Gustavo Tapioca, exibe todo o prazer da escritura.

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José Geraldo de Sousa Junior é Articulista do Estado de Direito, possui graduação em Ciências Jurídicas e Sociais pela Associação de Ensino Unificado do Distrito Federal (1973), mestrado em Direito pela Universidade de Brasília (1981) e doutorado em Direito (Direito, Estado e Constituição) pela Faculdade de Direito da UnB (2008). Ex- Reitor da Universidade de Brasília, período 2008-2012, é Membro de Associação Corporativa – Ordem dos Advogados do Brasil, Professor Associado IV, da Universidade de Brasília e Coordenador do Projeto O Direito Achado na Rua.

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